Pránava
O Poder do Som do Universo




As palavras têm poder. Elas são carregadas de vibrações e, entre a infinidade de sons que emitimos, não importa o local ou a época, um é reconhecido, desde os mais remotos tempos, como o mais poderoso de todos. Trata-se do mantra ÔM que, quando pronunciado recebe o nome de Pránava (também chamado akshara ou êkakshara) e quando escrito é chamado de Ômkára.

O termo mantra é traduzido como vocalização. No sentido heterodoxo, mantra é qualquer palavra ou som que nós emitimos. Já no sentido ortodoxo, Iniciático, mantra é um som, uma sílaba, uma palavra ou um texto que tenha um poder específico. No contexto do Yôga os mantras são alquimias sonoras usadas, entre outros fins, para induzir à meditação, que é um estado mais sutil de consciência, acima do nível mental.

O mantra ÔM é o mais especial de todos eles, pois é o próprio corpo sonoro do Absoluto, a vibração primordial do universo, que o mantém em estado de existência. O ÔM é também denominado o som matricial (mátriká mantra), a matriz de todos os demais mantras e, por isso, todos os outros são considerados aspectos do ÔM. Nas escrituras da Índia antiga o ÔM é considerado como o mais poderoso de todos os mantras. Além de ser o mantra mais completo, o ÔM é ainda o símbolo universal do Yôga, para todas as épocas e todos os ramos, e do Hinduísmo. A sílaba, formada pela junção das vogais A, U e M (A+U= Ô), não tem tradução.

O ÔM é também o bíja mantra do ájña chakra, ou seja, é o som que, através da ressonância, faz vibrar e se desenvolver o centro de força responsável pela meditação (estado de consciência atingido quando nos concentramos até o ponto em que saturamos as ondas mentais e não pensamos em mais nada) e pela intuição (quando a consciência flui em um nível acima do mental).

O poder do ÔM é tão grande que, segundo Pátañjali, a conexão com o Púrusha (chispa de vida e consciência que emana de cada um de nós, de acordo com a filosofia Sámkhya), é obtida através deste mantra. “Nele (Púrusha) está a semente da onisciência. É também o Mestre dos mais antigos Mestres, pois não está limitado pelo tempo. Ele é conectado pelo mantra ÔM (Pránava). Sua repetição e meditação (nele) conduzem à meta. Disso obtêm-se o conhecimento de Si Mesmo e a superação dos obstáculos” (DeRose, Yôga Sútra de Pátañjali, I, 25-29).

Foram os rishhi, yôgis muito ancestrais, que identificaram esse som perfeito, existente desde a criação do Universo. Também foram eles que desenvolveram, há vários milênios, na Índia, os demais mantras, que se derivaram do som matricial. Os Mestres Ancestrais arquitetaram, através da observação, da experiência e da prática, verdadeiras fórmulas sonoras, capazes de produzir certos efeitos, atuando tanto no corpo físico como no corpo energético de quem as vocaliza. Assim, existem mantras que auxiliam na concentração, na meditação, mantras para energizar e para sedar, para adormecer e para despertar, para aumentar o fôlego, para educar a dicção, melhorar o sono, a memória, o ritmo. Sempre lembrando que, entre todos, o mais equilibrado e poderoso é o Pránava.

Na prática fundamental de SwáSthya Yôga, no ády ashtánga sádhana, a função primordial do mantra é desobstruir as nádís, canais por onde circula o prána ou bioenergia. Nas práticas mais avançadas, os mantras são ferramentas para desenvolver chakras (centros de captação, armazenamento e distribuição de bioenergia, espalhados pelo corpo, sendo que os sete principais se localizam ao longo da coluna vertebral) e para despertar a kundaliní (energia física, de natureza neurológica e manifestação sexual, sobre cujo conceito se apóia todo o sistema do Yôga, seja de que ramo for).

Diante de tantos poderes, seria natural que com o passar do tempo aos mantras, e principalmente ao ÔM, o Pránava, fosse atribuída uma aura mística. No entanto, eles não são orações, não são músicas religiosas e não são fórmulas mágicas. São alquimias sonoras sim, mas que resultam de leis da acústica (parte da Física que estuda os sons e os fenômenos relativos a eles).

Mas de onde vem toda a força e o poder do ÔM? Vem do seu próprio traçado carregado de simbologia, da sua antiguidade, da energia acumulada sobre o Pránava e sobre o Ômkára, através de milhares de anos de uso, de registro no inconsciente coletivo e de veneração, tanto pelas consecutivas gerações de hindus, quanto, mais recentemente, por povos do mundo inteiro. Assim, ao pronunciar o mantra ou utilizar o yantra ÔM estabelecemos sintonia com uma corrente de força, poder e energia que é uma das maiores, mais antigas e mais poderosas da Terra.



Ana Cristina Pinheiro
Instrutora da Uni-Yôga Bueno - Goiânia / GO
anacristina.pinheiro@uni-yoga.org.br



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