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Mudrá A Linguagem das Mãos
Há quanto tempo você não dedica alguns instantes da sua agitada rotina para simplesmente observar suas mãos? Para lembrar quantas tarefas aparentemente fáceis – mas imprescindíveis para a sua sobrevivência! – só podem ser desempenhadas porque você tem mãos perfeitas e ágeis? Há quanto tempo você não desenha com o olhar o contorno dos seus dedos, não sente a vibração de cada um deles? Nossas mãos não são meras extensões dos braços, mero acabamento do corpo. Assim como cada pedacinho de nós, as mãos também possuem funções brilhantes dentro do harmonioso conjunto que é o organismo humano. Elas têm o poder de construir e nos fazer evoluir. Elas afagam, transmitem sentimentos e nos aproximam de nossos semelhantes. As mãos até mesmo falam por nós. Dispensam as palavras! Basta pensarmos no alfabeto manual e em como se comunicam os surdos-mudos. Basta nos lembrarmos de muitos gestos que externam o que estamos pensando. Alguns, mundo afora e em diferentes épocas, dizem exatamente a mesma coisa.
A energia que se concentra nas mãos é tão forte, que no Yôga a linguagem gestual merece atenção especial. Mudrá é o nome que se dá, nesta filosofia, aos gestos feitos com as mãos e os dedos. Alguns tipos de Yôga ensinam que os mudrás podem ser feitos com o corpo. No entanto, no SwáSthya Yôga – sistematização do Yôga Pré-Clássico, portanto o mais antigo e o mais autêntico – as técnicas feitas com o corpo são sempre chamadas de ásanas e são denominadas mudrás exclusivamente aquelas que são feitas com as mãos. A origem dos mudrás se encontra nas mais antigas tradições do Tantra, uma filosofia comportamental dos povos ancestrais da Índia, sobre a qual se baseiam alguns tipos de Yôga, entre eles o SwáSthya. Por meio da observação e da experiência, estabeleceram-se relações entre o estado interior e os gestos feitos com as mãos.
A tradução literal deste termo sânscrito – língua morta da Índia – é “gesto, senha ou selo”. Desta forma, os mudrás funcionam como códigos para que o praticante de Yôga atinja um determinado estado de consciência. Eles atuam no psiquismo e, consequentemente, no corpo físico. Mas para isso é necessário que haja uma vivência, uma atitude interior, e não apenas que se reproduza o gesto. Os mudrás podem ser magnéticos, reflexológicos ou apenas simbólicos e, dependendo desta classificação, são utilizados para diferentes fins ao longo de uma prática regular. Por exemplo, durante o pránáyáma (respiratório) normalmente é utilizado o jñána mudrá, gesto que estabelece uma corrente eletro-magnética, potencializando a captação e a expansão da bioenergia, o prána. Os ásanas (técnicas corporais) são comumente acompanhados de mudrás que simbolizam formas da natureza, animais e flores, entre outras figuras.
Tal é sua importância, que mudrá é também um dos oito angas (partes) que constituem uma prática elementar de SwáSthya Yôga, o ády ashtánga sádhana É a primeira destas oito partes que são: mudrá (gesto reflexológico feito com as mãos), pújá (retribuição de energia), mantra (vocalização de sons e ultra-sons), pránáyáma (respiratórios), kriyá (técnicas de purificação orgânica), ásana (técnicas orgânicas), yôganidrá (descontração) e samyama (concentração, meditação e hiperconsciência). No primeiro anga utiliza-se o Shiva mudrá, um gesto que é ao mesmo tempo magnético, simbólico e reflexológico. As mãos em concha, unindo pólos positivo e negativo, simbolizam um cálice onde é depositada a herança milenar do Yôga e, por associação neurológica e condicionamento reflexológico, ajudam o praticante a atingir um estado mais profundo de receptividade. Assim, faz-se uma conexão com as raízes do SwáSthya Yôga, que será essencial para um melhor desempenho e aproveitamento do restante da prática.
Os mudrás podem ser feitos com apenas uma das mãos (asamyukta hasta mudrá) ou com ambas (samyukta hasta mudrá). Não se sabe exatamente quantos são estes gestos, já que os nomes de cada um deles variam muito de acordo com a época e o local. Nós, do SwáSthya, utilizamos 108 mudrás do hinduísmo. Mãos que tomam formas de poder e energia, preservando assim uma tradição ancestral e tornando ainda mais bela e forte a prática dos ensinamentos milenares do Yôga.
Ana Cristina Pinheiro
Instrutora da Uni-Yôga Bueno - Goiânia / GO
anacristina.pinheiro@uni-yoga.org.br
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